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Acordo com farmacêutica impede divulgação da eficácia global da Coronavac

Em outra parte do acordo, consta que “a menos que expressamente permitido por este acordo ou com o consentimento prévio escrito e expresso da Sinovac, o Butantan [...]

Por Juka Martins em 12/01/2021 às 10:25:24

Em outra parte do acordo, consta que “a menos que expressamente permitido por este acordo ou com o consentimento prévio escrito e expresso da Sinovac, o Butantan n√£o ir√° manusear, utilizar, descartar, divulgar para, permitir que seja utilizado ou compartilhar com terceiros ou suas próprias filiadas (exceto com as autoridade regulatórias) o dossiê do produto de propriedade e fornecido pela Sinovac”.

Em mais um trecho, lê-se: “a Sinovac reserva o direito de decis√£o, escolha, elei√ß√£o, a seu critério de manuseio, uso, divulga√ß√£o, permiss√£o de uso ou compartilhamento com qualquer terceiro ou suas filiadas de tais dados clínicos da Sinovac”.

Mesmo assim, após insistência de jornalistas presentes, Dimas Tadeu Covas, diretor do Butantan, apontou alguns dados aproximados relacionados a infec√ß√Ķes pela Covid-19 detectadas durante a fase 3 do estudo da Coronavac no Brasil. Segundo ele, foram 218 infec√ß√Ķes, sendo 160 no grupo placebo e pouco menos de 60 no grupo vacinado.

A partir desses dados, é possível calcular uma efic√°cia de cerca de 64%, 14 pontos percentuais abaixo dos 78% de preven√ß√£o de casos leves e 14 pontos percentuais acima dos 50% da efic√°cia mínima exigida pelas agências regulatórias, como a Anvisa. Para chegar a esse número -mais precisamente 63,75%-, leva-se em conta 58 infec√ß√Ķes no grupo vacinado e grupos (placebo e o que tomou a vacina) do mesmo tamanho.

O motivo inicial, ainda no ano passado, de a Sinovac ter segurado o anúncio dos resultados brasileiros seria a discrep√Ęncia em rela√ß√£o a resultados dos testes em outras partes do mundo, como na Turquia, onde a efic√°cia anunciada foi de 91,25% -apesar de o país ainda ter somente dados provisórios.

A explica√ß√£o dos cientistas para essa diferen√ßa tem pelo menos dois componentes. O primeiro é a popula√ß√£o de cada país, que est√° longe de ser homogênea.

O segundo é intrínseco ao ensaio brasileiro. Por aqui os volunt√°rios eram profissionais de saúde, que sofriam uma exposi√ß√£o muito maior aos vírus -e aí têm que ser considerados o número de encontros com possíveis fontes de infec√ß√£o e a maior quantidade de vírus que chega no sistema respiratório dessas pessoas.

Pesquisadores ouvidos pela reportagem sob condição de sigilo atestam a integridade dos testes e se dizem confiantes na qualidade da vacina, mas apontam problemas.

Um deles é a press√£o do governo Jo√£o Doria (PSDB) para emplacar uma vitória política contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que incluiu datas para anunciar resultados e também para iniciar a imuniza√ß√£o no estado.

Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Outro é a falta de transparência da Sinovac, que tem dificultado o acesso geral aos dados, o que tem sido cobrado por pesquisadores brasileiros, por considerar baixa a efic√°cia obtida no bra√ßo brasileiro dos testes, dizem as fontes ouvidas pela reportagem.

J√° logo em seguida à coletiva com o anúncio, Esper Kall√°s, infectologista da da Faculdade de Medicina da USP, que participou do anúncio, afirmou à Science uma certa frustra√ß√£o pela n√£o divulga√ß√£o dos dados mais detalhados. Segundo o especialista, h√° divergência entre o Butantan e a Sinovac quanto ao que se configura como um caso de Covid-19 (além da confirma√ß√£o de infec√ß√£o por PCR).

De toda forma, mesmo com uma efic√°cia geral mais baixa, quando comparada a outras vacinas, como a da Pfizer (95%) ou a russa Sputnik V (90%) -que ainda n√£o teve dados da fase 3 disponibilizados para a comunidade científica avaliar-, especialistas afirmam que a Coronavac pode ser fundamental para conter as mortes por Covid-19 no país, tendo em vista o sucesso de 100% em evitar quadros graves nos testes.

Outra vantagem da Coronavac é a facilidade de armazenamento, em refrigeradores convencionais. Além disso, como a produ√ß√£o est√° sendo feita pelo Butantan, a logística de distribui√ß√£o do imunizante também tende a ser facilitada.

Desde sexta (8), a Anvisa est√° analisando o pedido de uso emergencial da vacina. O prazo de an√°lise é de 10 dias. Só depois disso haver√° a divulga√ß√£o dos dados e, por fim, a publica√ß√£o dos resultados na forma de artigo científico.

Procurado, o Instituto Butantan n√£o se manifestou até a publica√ß√£o desta reportagem.

Fonte: Banda B

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