Banner Lives

Entenda quais os possíveis efeitos adversos que podem surgir no desenvolvimento de uma vacina

Os efeitos adversos, por serem raros, não costumam aparecer nas fases 1 e 2 ou, se aparecem, causam a suspensão do estudo. Entretanto, uma vacina que avançou até a fase

Por Juka Martins em 10/09/2020 às 08:33:36

Os efeitos adversos, por serem raros, não costumam aparecer nas fases 1 e 2 ou, se aparecem, causam a suspensão do estudo. Entretanto, uma vacina que avançou até a fase 3 pode agora apresentar efeitos adversos antes desconhecidos, justamente por ser testada em um número maior de indivíduos.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), há, no momento, oito vacinas contra Covid-19 em desenvolvimento sendo avaliadas nesta terceira etapa, sendo que cinco delas realizam testes também no Brasil. O órgão afirmou que não haverá vacinação em massa enquanto não houver uma vacina segura e eficaz.

Há, contudo, uma quarta fase, chamada de fármaco-vigilância, sem prazo definido. "Alguns efeitos são tão raros que só observamos quando o fármaco é usado em milhões de indivíduos, não aparecem em testes com 1.000, 2.000, 10 mil pessoas", explica Luciana Leite, diretora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan.

Foi o caso da vacina contra a dengue. Após passar por todas as fases de segurança e eficácia, uma vacina desenvolvida pela Sanofi Pasteur foi aprovada em 2016 para uso.

Ao aplicá-la na população, os pesquisadores descobriram que a vacina podia causar uma versão da doença muito mais grave, similar ao quadro hemorrágico de algumas pessoas ao contraírem a doença pela segunda vez. Leite explica que se trata de uma reação chamada aumento dependente de anticorpo (ADE, na sigla em inglês). Por isso, a Anvisa contraindica o imunizante àqueles que nunca tiveram dengue.

Outro exemplo é de uma candidata à vacina BCG, contra a tuberculose, que não passou da fase 1 nos Estados Unidos após ter reativado o vírus herpes-zóster em dois pacientes de um total de 30 avaliados –quase 7% da amostra.

Por isso, é importante vacinar voluntários saudáveis, sem condições pré-clínicas que poderiam influenciar na ação do imunizante.

O caso em investigação da vacina da Oxford busca entender se uma inflamação chamada mielite, que acomete os nervos da medula espinhal, estaria relacionada à vacina ou não.

"Isso é o que chamamos causa biológica ligada à vacina, isto é, quando a própria vacina gera uma resposta no organismo que é indesejada e, nesse caso, adversa. Agora os voluntários são acompanhados diariamente, e cada tipo de efeito é investigado, buscando-se também a plausibilidade de dado efeito ter sido provocado pela vacina", afirma Fernando Reinach, professor titular de bioquímica na USP.

Essa plausibilidade significa, por exemplo, verificar se um paciente que desmaiou algumas semanas após tomar a vacina mostrou alterações no sangue ou no sistema imune que indiquem possibilidade de relação com o imunizante ou se ele tinha um quadro de pressão baixa ou desmaios frequentes que não informou aos pesquisadores.

Foto: Erasmo Salomão/Ministério da Saúde

Como na fase 3 de um ensaio são muitas pessoas envolvidas –a AstraZeneca avalia no momento cerca de 18 mil voluntários–, os pesquisadores precisam acompanhar cada caso de perto. É por isso que a decisão de pausar um ensaio é vista com bons olhos por especialistas.

O protocolo para produção da vacina da Oxford optou pela suspensão temporária do estudo para avaliar o caso, mas é comum também se buscar a frequência daquela reação. O primeiro passo é a investigação.

"É um procedimento de rotina nos ensaios de vacina. Não chamamos de erro; efeitos adversos ocorrem, é de se esperar. O importante é detectá-los rapidamente e solucionar o problema", afirma Garrett.

Segundo a Anvisa, os eventos adversos –termo mais preciso para "efeitos colaterais"– são quaisquer ocorrências em participantes de um estudo clínico, sem necessariamente uma relação causal definida com o fármaco. Sempre que há um evento é necessário investigar a relação de causalidade, diz o órgão.

"A definição sobre a pesquisa ou a sua reorientação depende da investigação destes eventos e da própria avaliação de risco-benefício que vai sendo descoberta ao longo do estudo", completa.

Para Leite, a suspensão total ou não de uma vacina depende também da toxicidade e a seriedade do efeito. Como na fase 3, além da avaliação da eficácia, se continua a avaliar segurança, efeito único em um só paciente pode ser o suficiente para enterrar um imunizante.

No caso da Oxford, a decisão se mostrou um bom exemplo de como os protocolos de segurança e rigor científico não devem ser suspenso mesmo em uma situação de pandemia, quando há pressão dos governos pela aceleração dos estudos.

"Como os adenovírus são muito utilizados em medicamentos com câncer, geralmente utilizados em uma quantidade reduzida de participantes, não conhecíamos ainda efeitos adversos em vacinas", afirma Leite. As vacinas em teste de adenovírus [caso da de Oxford] até agora se mostraram seguras. Se eles conseguirem dissociar o caso [da reação adversa] da vacina, podem dar continuidade."

Entenda o passo-a-passo na produção de uma vacina

Como são feitos os testes para vacinas?
Os cientistas primeiro identificam os mecanismos de ação dos anticorpos contra o organismo causador da doença em laboratório, com testes em células in vitro e em modelos animais

Ensaios clínicos
Após obter resultados positivos nos ensaios pré-clínicos em animais, os pesquisadores entram com um pedido de ensaio clínico. Na etapa de recrutamento são selecionados voluntários saudáveis seguindo os critérios elegíveis para aquela vacina

Ensaios randomizados duplo-cegos
Nos ensaios randomizados duplo-cegos, também chamados de padrão-ouro, os voluntários são aleatoriamente distribuídos em diferentes grupos que receberão a vacina propriamente dita ou placebo, sem que os voluntários ou os profissionais de saúde saibam quem recebeu o fármaco e quem recebeu placebo, evitando assim vieses

Fase 1
Com os voluntários recrutados, inicia-se a fase 1 de testes. Essa fase, em geral, busca medir segurança, efeitos colaterais e tolerância ao imunizante. Os pesquisadores avaliam também a presença de anticorpos no organismo. A fase 1 dura em média dois anos.

Fase 2
Na fase 2, os pesquisadores pretendem avaliar se diferentes doses têm efeitos melhores ou piores no organismo, além de continuar avaliando a segurança. Já é possível determinar se a vacina gera uma resposta imune mais eficaz ou não. Levam, em geral, mais de dois anos.

Fase 3
A última fase do ensaio clínico busca determinar a eficácia da vacina em prevenir determinada doença. Para essa fase, é testado um número maior de voluntários, na casa das dezenas de milhares.

Os pesquisadores podem ainda dividir em subgrupos para testar, por exemplo, em crianças. Nessa etapa, a segurança continua a ser avaliada, por isso a pesquisa da vacina da Oxford foi suspensa temporariamente após identificação de um efeito adverso. Em geral, as vacinas levam de seis a dez anos para concluírem todas as etapas de ensaios clínicos e serem aprovadas para uso

Fonte: Banda B

Comentários

Happy Kids
Tapiocaria Silva