Promotor diz que Queiroz ficou surpreso com prisão e não sabe se 'ele estava se escondendo ou era escondido por alguém'

José Claudio Baglio, do Ministério Público em Campinas, disse que a a√ß√£o foi realizada sem a certeza de que Queiroz estaria no imóvel. Defesa diz [...]

Por Juka Martins em 18/06/2020 às 21:46:52
José Claudio Baglio, do Ministério Público em Campinas, disse que a a√ß√£o foi realizada sem a certeza de que Queiroz estaria no imóvel. Defesa diz que ele teme pela própria vida. "Queiroz disse que jamais esperava passar por aquela situa√ß√£o", diz promotor do Gaeco

O promotor José Claudio Baglio, do Ministério Público de S√£o Paulo, em Campinas, disse que Fabrício Queiroz, ex-assessor e ex-motorista do senador Fl√°vio Bolsonaro (Republicanos-RJ) mostrou estar surpreso com sua pris√£o na casa em Atibaia, no interior de S√£o Paulo, na manh√£ desta quinta-feira (18). Segundo Baglio, Queiroz foi encontrado sozinho e n√£o é possível afirmar se ele estava se escondendo ou sendo escondido.

"Eu n√£o quero passar impress√Ķes pessoais, mas chamou a aten√ß√£o de que ele estava sozinho ali, absolutamente sozinho, os caseiros ficavam em uma casa longe, quando foi ofertado que ele ligasse para alguém ele ligou para a filha. Me pareceu que ele estava ali para alguma atividade se n√£o permanecer na casa e n√£o um momento da vida dele que ele estivesse de estar em S√£o Paulo, n√£o quero fazer ila√ß√Ķes de que ele estava se escondendo ou sendo escondido, mas a situa√ß√£o era bem peculiar."

Baglio fez parte da for√ßa-tarefa entre promotores do Rio de Janeiro e a Polícia Civil de S√£o Paulo para cumprir o mandado de pris√£o de Queiroz e de busca e apreens√£o no imóvel. "Encontramos o senhor Queiroz deitado em um dos cômodos. Ele ficou surpreso com nossa chegada, disse que "jamais esperava", com 30 anos de policial reformado, que tivesse que passar por aquela situa√ß√£o."

Segundo o promotor, a opera√ß√£o foi realizada sem a certeza de que Queiroz estava no imóvel. "A gente só soube que o Queiroz estava l√° quando a gente entrou no recinto. O Ministério Público de S√£o Paulo foi acionado para saber informa√ß√Ķes sobre um endere√ßo, mas sempre com todos cuidados e sigilosos que demandam uma situa√ß√£o como essa. Todos os esfor√ßos foram no sentido de efetivar o cumprimento dessas ordens judiciais."

Baglio afirmou ainda que foi preciso acionar uma comiss√£o da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para acompanhar a diligência, tendo em vista que o imóvel tinha uma placa como se ali funcionasse um escritório de advocacia.

"Todos os indicativos era de que o local era um escritório de advocacia, algumas providências foram necess√°rias por conta da prerrogativas que a atividade do direito demanda, por isso acionamos a OAB para que alguns advogados da comiss√£o de prerrogativas pudessem acompanhar a opera√ß√£o", explicou o promotor.

Baglio afirmou ainda que perguntou ao Queiroz se ele se manteve isolado. "Perguntamos com quem ele tinha contato ali, ele n√£o respondeu. Mas havia um veículo da propriedade do advogado. E o caseiro disse que ele [Queiroz] j√° estava h√° bastante tempo ali."

A a√ß√£o policial realizada na madrugada desta quinta-feira foi marcada por sigilo absoluto, tanto que os policiais só souberam duas horas antes que o alvo do mandado pris√£o era Fabrício Queiroz,ex-assessor e ex-motorista do senador Fl√°vio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que acabou sendo preso em Atibaia, interior de S√£o Paulo, às 6h desta quinta-feira.

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Osvaldo Nico Gon√ßalves, delegado division√°rio do Departamento de Capturas e Delegacias Especializadas (Decade), que coordenou a opera√ß√£o em S√£o Paulo, disse que é normal as a√ß√Ķes de cumprimento de mandado de pris√£o terem car√°ter sigiloso por raz√Ķes de seguran√ßa e para evitar "vazamentos sem maldade".

"N√£o soubemos. Fizemos um briefing na sede do Gaeco em Campinas às 4h. A opera√ß√£o foi feita com 20 policiais, saímos de S√£o Paulo às 3h e chegamos a Campinas em uma hora. N√£o foi para evitar vazamento, foi um cuidado que sempre tomamos para que nenhum policial falasse, sem maldade, para algum amigo ou familiar. Esse sigilo é praxe da polícia mesmo. Em todas as a√ß√Ķes que fa√ßo, h√° 20 anos, é assim", disse Osvaldo Nico Gon√ßalves.

Ele afirmou ao G1 que os policiais precisaram quebrar uma corrente para terem acesso ao imóvel onde estava Queiroz. "Saímos do Gaeco às 5h e chegamos ao endere√ßo às 6h, em total sincronia com a opera√ß√£o feita no Rio de Janeiro. Precisamos cortar uma corrente porque a gente tocou a campainha, mas ele [Queiroz] n√£o ouvia, pois tinha tomado remédio para dormir e a campainha, verificamos depois, era bem fraca mesmo."

Nico informou ainda como era a rotina de Queiroz. "Ele tinha liberdade de sair, ia para o supermercado, por exemplo, mas ele estava meio recluso por opção dele mesmo, era o pensamento dele mesmo ficar fechado."

O mandado de pris√£o preventiva - sem prazo para acabar - foi expedido pela Justi√ßa do Rio de Janeiro, num desdobramento da investiga√ß√£o que apura esquema de "rachadinha" na Assembleia Legislativa do estado (Alerj). No esquema, segundo a investiga√ß√£o, funcion√°rios de Fl√°vio, ent√£o deputado estadual, devolviam parte do sal√°rio, e o dinheiro era lavado por meio de uma loja de chocolate e através do investimento em imóveis.

Queiroz foi preso quando estava em um imóvel de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Na quarta-feira, Wassef estava no Pal√°cio do Planalto, na cerimônia de posse do ministro das Comunica√ß√Ķes (leia mais baixo sobre a rela√ß√£o de Wassef com o presidente e a família).

Segundo advogado Paulo Emílio Catta Preta, que assumiu a defesa de Queiroz, ele afirmou ter recebido amea√ßas de morte. "Sim, ele teme pela vida dele", disse o advogado ao ser questionado por jornalistas na porta do Presídio de Benfica, na Zona Norte do Rio, onde Fabrício Queiroz foi levado depois de ter sido preso em S√£o Paulo.

O advogado disse n√£o saber detalhes sobre as supostas amea√ßas recebidas por Queiroz. "Ele n√£o me disse [quem fez as amea√ßas], mas disse que j√° recebeu amea√ßas desde que esse caso veio à tona", enfatizou Paulo.

Catta Preta disse ainda que pretende entrar ainda nesta quinta com pedido de habeas corpus para Queiroz.

Pal√°cio da Alvorada

Em Brasília, nesta manh√£, o presidente deixou o Pal√°cio da Alvorada, residência oficial, em um comboio em alta velocidade, e n√£o parou para falar com apoiadores, como faz h√° meses.

O senador Flávio Bolsonaro disse, por uma rede social, que encara "com tranquilidade os acontecimentos de hoje" e que "mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro".

Quando o caso Queiroz veio à tona, ainda em 2018, o senador disse que "as pessoas que s√£o suspeitas têm que ser investigadas". No fim de maio, no entanto, classificou Queiroz como um "cara correto, trabalhador, dando sangue por aquilo que ele acredita".

Vídeo mostra momento em que Queiroz é preso em Atibaia, no interior de SP

Em setembro de 2019, o advogado Wassef disse ao programa Em Foco, da GloboNews, que n√£o sabia o paradeiro de Queiroz, e que n√£o era advogado dele (veja trechos da entrevista). Um caseiro do imóvel disse à polícia, entretanto, que o ex-assessor estava l√° havia um ano.

Segundo um delegado que participou da opera√ß√£o, foi preciso arrombar o port√£o e a porta da casa onde Queiroz estava. Ele n√£o resistiu e só disse que estava muito doente. Na casa, em uma parede sobre a lareira, havia um cartaz do AI-5, ato institucional de 1968 que endureceu a ditadura militar.

Após ser preso, o ex-assessor de Fl√°vio Bolsonaro passou pelo Instituto Médico Legal na cidade de S√£o Paulo e foi levado para o Departamento de Homicídios e Prote√ß√£o à Pessoa da Polícia Civil, de onde saiu por volta das 9h50 para ser transferido para o Rio.

Men√ß√£o ao AI-5, ao lado de bonecos do personagem Tony Montana, encontrada na casa em Atibaia em que Fabrício Queiroz estava escondido quando foi preso pela Polícia Civil de SP

arquivo pessoal

O Ministério Público do Rio de Janeiro pediu a pris√£o de Queiroz porque considerou que o ex-assessor de Fl√°vio Bolsonaro continuava cometendo crimes e estava fugindo e interferindo na coleta de provas. A Justi√ßa autorizou também a pris√£o da mulher de Queiroz, M√°rcia Oliveira de Aguiar. Às 10h30, ela ainda n√£o havia sido encontrada e foi considerada foragida.

Fabrício Queiroz em foto com Fl√°vio Bolsonaro

Reprodução/JN

No Rio, a Polícia Civil também fez buscas na casa de Alessandra Esteves Marins, que faz parte da equipe de apoio do senador Fl√°vio Bolsonaro no Rio de Janeiro. Segundo as investiga√ß√Ķes, Alessandra repassou cerca de R$ 19 mil a Queiroz.

'Conhe√ßo tudo que tramita na família Bolsonaro', disse advogado

Fabrício de Queiroz foi preso e levado para unidade da polícia em S√£o Paulo antes de seguir de helicóptero para presídio no Rio

Além de advogado de Fl√°vio, Wassef defende o presidente Jair Bolsonaro no caso da facada que Bolsonaro sofreu de Adélio Bispo em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral para a presidência da República, em 2018, e também atuou na defesa da família Bolsonaro no caso do porteiro.

Em entrevista à R√°dio Gaúcha em 28 de abril, o advogado disse que est√° "no dia a dia" com a família presidencial:

"Eu estou no dia a dia aqui com o presidente e com a família Bolsonaro. Eu conhe√ßo tudo que tramita na família Bolsonaro"

Wasseff (à esquerda) participa de cerimônia de posse do ministro das Comunica√ß√Ķes, em Brasília, na quarta (18)

Reprodução/TV Globo

Movimentação de R$ 1,2 milhão em 2016 e 2017

Queiroz foi assessor e motorista de Fl√°vio Bolsonaro até outubro de 2018, quando foi exonerado. O procedimento investigatório criminal do Ministério Público Estadual do RJ que apura as irregularidades envolvendo Queiroz na Alerj chegou a ser suspenso por decis√£o do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, após pedidos de Fl√°vio Bolsonaro em 2019.

As investiga√ß√Ķes envolvem um relatório do Coaf, que apontou opera√ß√Ķes banc√°rias suspeitas de 74 servidores e ex-servidores da Alerj. Recursos usados para pagar funcion√°rios na Alerj voltavam para os próprios deputados estaduais.

A movimenta√ß√£o atípica de R$ 1,2 milh√£o na conta de Queiroz ocorreu, segundo as investiga√ß√Ķes, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, incluindo depósitos e saques.

Rodrigo Sanches/G1

Fonte: G1

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