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Resistência popular garantiu vitória na Venezuela

Dezoito anos depois da entrada de Hugo Chávez em Miraflores, a espetacular vitória do chavismo nas eleições municipais deste domingo mostra que a Venezuela resiste e luta. “Querem nos obrigar a trair a Revolução pela fome mas não vão conseguir”, me disse, em tom de promessa solene, a servidora Esmeralda Vasquez, 61 anos, duas filhas, duas netas, moradora no Sucre, município popular de 600 moradores nos arredores de Caracas. “Amo Chávez, apoio Maduro”, diz ela, depois de contar, em tom divertido, que há retratos de Chávez em cada aposento de sua casa, inclusive no banheiro.

Enfrentando uma guerra econômica que lembra a barbárie da Guerra Fria, que produziu o boicote econômico que sacrifica a população de Cuba desde 1962, e alimentou a queda de Salvador Allende no Chile, em 1973, a população da Venezuela tomou o caminho das urnas com a consciência de quem dá um passo para a História. Contrariando uma sequência de derrotas populares ocorridas nos países vizinhos, em três eleições consecutivas – para a Constituinte, para os governos de Estado, para os prefeitos –os venezuelanos asseguraram um fôlego indispensável ao governo Maduro, que terá uma eleição presidencial para enfrentar em 2018.

Numa disputa que jamais teria condições de vencer, seja pelo desgaste de lideranças comprometidas com o ambiente de baderna e violência criado no país, seja pela identificação óbvia dos interesses por trás da guerra econômica que sacrifica a maioria, os principais líderes da oposição preferiram escapar de uma derrota desmoralizadora por uma estratégia já assumida outras vezes – fugir das urnas. Ficaram longe da disputa e sequer pediram, abertamente, voto para aliados e afilhados políticos. Seus partidos se apresentaram de forma dividida, com dois, três e até quatro candidatos em várias cidades, numa demonstração de fraqueza que contém uma mensagem reveladora e preocupante, do ponto de vista da democracia. Sugere que, incapazes de disputar o poder pelo voto, pretendem cultivar a postura nefasta que aponta para a retomada, cedo ou tarde, da violência e da sabotagem que marcava país até a vitória de Maduro na Constituinte.

Numa amostra dessa situação, na quarta-feira da semana passada, cinco dias antes do pleito, o dólar era vendido a 3 000 bolívares no câmbio oficial – e 70 000 no paralelo. No dia seguinte, o preço havia saltado para 120 000 bolívares. Na sexta-feira, num desses sintomas preocupantes de colapso, a população fazia fila de dobrar o quarteirão no centro de Caracas para sacar dinheiro em caixas eletrônicas.

Não se trata, é evidente, de um problema de natureza econômico, mas essencialmente político. Através de manobras escancaradas e fora de qualquer controle oficial, o que se tenta é impedir as autoridades venezuelanas de exercer uma das tarefas legítimas e essenciais do Estado – defender a moeda do país, ponto essencial para a definição da riqueza de toda nação independente. A sabotagem terminou em fiasco eleitoral vergonhoso mas deixou um retrato político claro.

“Apesar da imensa pressão contra nossa economia, exportações e empregos, nossos adversários não foram capazes de separar a liderança da Revolução de sua base histórica de apoio e isso permite encarar o futuro” afirma Luís Figueroa ao 247, referindo-se a cidadãos e cidadãs como a Esmeralda Vasquez do parágrafo acima. Quadro histórico do partido chavista (PSUV), em 2015 Figueroa foi escolhido por Nicolas Maduro como principal liderança civil de um dos diversos organismos de nome autoexplicativo (“Estado Maior de Luta contra a Guerra Econômica”) criados como parte do esforço permanente para enfrentar a ações de sabotagem e manipulação de preços. Na semana passada, era candidato a prefeito em La Plaza, onde se localiza a cidade de Guarenas, uma referência política e histórica. Origem da insurreição de 1989, que deu origem ao “Caracazo”, luta popular que inspirou a tentativa de golpe militar de Hugo Chávez em 1992 e a abriu caminho para a primeira vitória presidencial, em 1998. (Até a conclusão dessa reportagem, o resultado da eleição em La Plaza não fora divulgado).

Hoje a principal estudiosa das guerras econômicas em nosso continente, a professora Pasqualina Curcio, da Universidade Simon Bolívar, ensina que elas têm um traço essencialmente político, ganhando musculatura maior em momentos de disputa aberta pelo poder político. Em “La Mano Visible del Mercado”, obra de leitura obrigatória para os interessados nas operações políticas destinadas a quebrar a economia de um país, a professora mostra que a escassez artificial de produtos básicos – como se vê hoje no país – é um elemento essencial das guerras econômicas, que sempre se tornam mais agudas em momentos conflito e inconformismo das elites dirigentes de um país, como ocorreu no início, no meio e no fim do governo Chávez – prolongando-se de modo permanente a partir da eleição de Nicolás Maduro, em 2013, até a Constituinte.

Em entrevista ao 247, na qual entrou em maiores detalhes sobre o assunto, Pasqualina diz que a guerra econômica é “um mecanismo que se ativa quando o sistema capitalista sente-se ameaçado por um sistema alternativo”. Para dissipar dúvidas possíveis, ela recorda a documentação do Senado americano sobre o golpe contra Allende, admitindo que “é impossível compreender o efeito da ação encoberta (em apoio ao golpe) sem conhecer que a acompanhou”.

Sem deixar de reconhecer a existência de problemas conjunturais e estruturais na economia venezuelana, Pasqualina Curcio argumenta que o país exibe um quadro geral de dados favoráveis, que nem de longe justificam, tecnicamente, o ambiente de sufoco em torno do país. Lembra o PIB, que cresceu 9% capta nos últimos 30 anos. Fala de um quadro social positivo, num país que hoje é o menos desigual da América do Sul, segundo a CEPAL. Cita a Dívida Externa, paga pontualmente nos últimos cinco anos. Foram 70 bilhões de dólares no período. Recorda que, em termos relativos, ela irá gerar um desembolso relativamente menor em futuro próximo – 90 bilhões até 2038. Lembrando que as pressões sobre o dólar só poderiam ter alguma justificativa num país comprovadamente incapaz de honrar seus compromissos com credores internacionais, ela recorda que a Venezuela não só possui a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, mas também a segunda maior de ouro. “É impossível compreender o efeito da guerra econômica sem conhecer a pressão que a companha”, disse a professora, em palestra para jornalistas e economistas estrangeiros, em Caracas, na sexta-feira passada.

Vitorioso na Constituinte, em seguida na eleição para governadores de Estado e agora para prefeitos, o chavismo tem direito de festejar uma imensa vitória política. Mas segue às voltas com a guerra econômica, que, em níveis mais ou menos graves conforme cada conjuntura, atinge o país inteiro. Sem a menor chance – ao menos na atual relação de forças – de recuperar o poder pelas urnas, a oposição não dá o menor indício de que pretende chegar a um acordo de sobrevivência que possa implicar no reconhecimento da legitimidade de adversários históricos.

Num país onde a principal fonte de riqueza se encontra no petróleo – propriedade do Estado –, são empresas privadas, em sua maioria internacionais e poucos grupos locais, que produzem a comida que vai a mesa, a roupa em cima do corpo, os bens a venda nas feiras, supermercados e shoppings. Produtos essenciais –como a farinha pré-cozida de milho, uma espécie de arroz com feijão local – são importados pelo setor privado, com dólar adquirido com tarifa subsidiada, mas podem ser vendidos a preços que permitem ganhos muito acima da decência.

Com seu preço controlado, após muitas pressões por um aumento, inclusive através de operações destinadas a fazer o produto sumir dos supermercados, em março de 2016 os gigantes econômicos que controlam a distribuição de farinha de milho pré-cozida conseguiram reajustar seu preço. O quilo passou de 19 para 700 bolívares – um aumento que dispensa comentários, de 4 000%.

“É hora de aplicar a mão dura contra especuladores, que cometem crimes contra a população, prejudicam milhões de famílias e permanecem impunes,” disse ao 247 a diretora de escola Ana Cedeño, liderança política do PSUV, em Caríbia, nos arredores de Caracas. Universo típico das forças que, na base da sociedade venezuelana mostram a disposição de  quem não pretende abaixar os braços,  numa façanha que acima de tudo reflete o apego da maioria às conquistas do período anterior ao desmoronamento dos preços do petróleo, a cidade é residência de 3171 famílias organizadas numa instituição que o vocabulário político da Venezuela define como “comuna boliviariana”.

Formada por nove conselhos de 40 lideranças eleitas, ali a luta social mobiliza uma população que combina a labuta pela sobrevivência com a defesa de seus direitos – a começar pelos CLAPs, os comitês que oferecem, todos os meses, uma cesta básica de acordo com a renda de cada um. Num esquema que é chamado de “populista” quando se produz ao lado debaixo do Equador, mas é embalado como “social-democracia” e até “distribuição de renda” quando aplicado a países desenvolvidos, o preço da cesta ofertada a cada família é de 15 000 bolívares, ou U$ 1,50 no câmbio oficial, para um conjunto de quinze produtos que incluem um quilo de arroz, outro de farinha e assim por diante.

Presente na maioria dos bairros populares, e também em edifícios de porte maior, os CLAPs surgiram como uma resposta urgente a guerra econômica. Do ponto de vista político, são a expressão mais recente da gigantesca floresta de organismos de base a sociedade venezuelana colocou de pé a partir da chega de Hugo Chávez ao governo, em 1999 e permite uma resistência capilar e musculosa, difícil de derrotar.

“Nem precisamos esperar pela , contagem do votos: aqui a Erica Farias vence por mais de 90%”, me disse um militante de base no Sucre, ao final da tarde de ontem, referindo-se a candidata do PSUV que obteve uma vitória consagradora na capital venezuelana. “Estamos nos CLAPs, nas mesas de discussão sobre a falta de água, nos debates sobre transporte”.

“Estamos vivendo um momento de fé e esperança”, diz o gerente Hector Rondon, 59 anos, um senhor de hábitos cautelosos, que recusou o voto a Hugo Chávez em 1998, porque “não gostei daquela história de golpe militar” mas converteu-se de corpo e alma ao chavismo nos anos seguintes. No último dia da campanha ele se encontrava no centro de Caracas para participar de um comício dos candidatos do PSUV.

“Ninguém passa fome mas todo fazem sacrifícios e diminuíram o padrão”, diz ele, referindo-se a mudanças no consumo de carne e demais proteínas animais, nos passeios com amigos, nas compras de roupa.

São mudanças que atingem a maioria da sociedade, com exceção, naturalmente, daquele topo histórico com grandes fortunas, boa parte armazenada fora do país. Jovens casais de classe média têm sido levados a adiar planos de casamento, pela absoluta dificuldade de fazer o básico — alugar um apartamento. Em busca de um reforço para o orçamento, mesmo famílias bem estruturadas onde todos têm diploma universitário procuram reforçar a renda, fazendo roupas e outros serviços para fora.

A vitória eleitoral foi espetacular porque permitiu à maioria dos venezuelanos encontrar seu próprio caminho para impedir o desmanche do país e defender suas conquistas. Esta foi a mensagem das urnas. Mas a desordem da economia e a conspiração política tem seu limite, no tempo e no espaço.

“Acredito que dentro de um ano o país irá encontrar uma saída”, afirma Hector Rondon.

 

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