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Deveríamos exterminar os bebês com microcefalia?

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A antropóloga Debora Diniz, do instituto de bioética Anis, anunciou esta semana que prepara uma ação para pedir à Suprema Corte o direito ao aborto em gestações de bebês com microcefalia. Em 2004, sua organização entrou com um o pedido de avaliação dos abortos para fetos anencéfalos e foi aceito pelos ministros, por 8 votos a 2, em 2012.

Ela declarou em entrevista à BBC Brasil: “Hoje, sabemos que a microcefalia típica é um mal incurável, irreversível, mas o bebê sobrevive (na maioria dos casos). Portanto trata-se do aborto propriamente dito e isso enfrenta resistência”. E acrescentou: “Somos uma organização que já fez isso antes. E conseguiu. Estamos plenamente inspiradas para repetir”.

A microcefalia é uma doença em que a cabeça e o cérebro das crianças são menores que o normal para a sua idade, o que prejudica o seu desenvolvimento mental, explica a pediatra Beatriz Beltrame. Uma das hipóteses que está sendo estudada é a ação do Zika vírus durante a gravidez. Mas a microcefalia também pode ser genética e acontece em crianças que possuem outras doenças como Síndrome de West, Síndrome de Down e Síndrome de Edwards, por exemplo, escreve a especialista no site Tua Saúde.

Quando analisamos as informações médicas, inevitavelmente, desejamos poupar da dor as crianças gravemente deficientes, da mesma forma que, é natural, nós queiramos poupar os pais que sofrem. Quem desejaria que um inocente vivesse por toda a sua vida em uma batalha pela saúde? Quem desejaria a uma jovem mãe que seu bebê nascesse com tantas complicações?

A dor e a perspectiva de um futuro com desafios tão grandes nos levam a pensar com misericórdia nessas pessoas. Desejamos o melhor a elas. Há um sentimento de amor e cuidado para que o sofrimento possa ser evitado ou, pelo menos, amenizado.

Esses sentimentos nobres deveriam nos impulsionar com afinco à busca por soluções, a desenvolver um sistema de apoio eficiente para as mães, a valorizar aquelas que podem fazer tudo o que os homens fazem e ainda têm a capacidade de gerar uma vida. Contudo, não é isto que está acontecendo.

Quando nos apresentam a opção do aborto como “solução” para os casos de microcefalia (que logo será para a Síndrome de Down também), nos ensinam que acabar prematuramente com uma vida é a saída para muitos problemas. Nos ensinam que qualquer outra situação que não seja considerada “normal” deveria ser exterminada. Nos ensinam que a morte é a resposta para situações difíceis. A morte?

Além disso, outro ponto levantado por quem vê no aborto uma “escolha” para os casos de microcefalia é a nossa responsabilidade, como sociedade. Muitas pessoas acreditam que os filhos são responsabilidades apenas dos pais, principalmente da mulher.

Dessa forma, dizem, deveríamos oferecer a esta mãe o “direito” de poder matar o próprio filho, se assim quisesse. (Mesmo sabendo que o aborto só mascara os reais problemas que as mulheres enfrentam.) Quem defende tal ideia, geralmente, fica horrorizado em pensar que terá que se envolver com a questão de educar crianças e dar suporte em casos de doença, uma vez que, não sendo pai nem mãe, “nada disso lhe diz respeito”. Não mesmo?

As crianças de hoje serão os profissionais de amanhã. Muitos serão médicos, policiais ou políticos. Portanto, vão cuidar da saúde ou segurança da sociedade em que eu e você viveremos daqui a 25 anos. Sua formação vai passar pela maneira como são educados diretamente por seus pais, e, indiretamente, por nós, por meio das causas que apoiamos hoje e ajudamos a promover, bem como, por nossas “conquistas” junto à Suprema Corte.

Isto significa que as crianças estão, neste momento, interagindo com todas as ideias lançadas, como as defendidas pelo Instituto Anis. Se alguém apoia o “joga fora e faz outro” ou “cérebro veio com defeito, pode eliminar”, deve ser lembrado que provavelmente os jovens de hoje, convencidos por essas ideias, farão parte de uma nova geração que achará natural criar um Estado sem responsabilidades.

Um Estado que permitirá a carnificina de inocentes, porque é bem mais barato do que oferecer condições de uma vida digna a um bebê com microcefalia ou alguma outra diferença. Um Estado que pouco se importará com os mais fracos, ou com aqueles que ficarão assim. Que só dará valor aos mais fortes e “adaptados” até achar uma solução mais “prática” para os idosos, doentes e “diferentes” de amanhã. Em algum lugar da história, já vimos esse roteiro.

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Cristiano Ricelli

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